Agentes veem oportunidade de longo prazo em fusões e aquisições

17 de março de 2014

Dados mais recentes sobre fusões e aquisições consolidados pela Associação Brasileira das

Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), referentes ao primeiro semestre de 2013, apontam o volume mais baixo para o período desde 2008.

As operações somaram R$ 43 bilhões, valor 32,4% inferior ao do mesmo período de 2012, que alcançou R$ 63,6 bilhões. Em número de operações, embora o primeiro semestre de 2013 apresente praticamente a metade dos anúncios do mesmo período do ano anterior (54 em 2013 e 111 em 2012), não chegou aos patamares mais baixos da série, registrados nos primeiros semestres de 2008 e 2009 (48 operações).

Os números porém não afetam as expectativas dos especialistas. Há um consenso no mercado de que 2014 não será um ano ruim para esse tipo de operação e nem ficará abaixo dos patamares dos últimos anos.

As principais apostas estão na área de infraestrutura, bens de consumo, varejo e saúde. Sendo os três últimos impulsionados pelo aumento de renda da população brasileira.

Fábio Mourão, chefe do banco de investimentos do Credit Suisse no Brasil, diz que é preciso fazer análises menos emocionais e olhar com mais frieza os números. Para ele, não houve uma retração significativa na comparação de 2013 com 2012, e não vê 2014 com pessimismo. “Mesmo em um ano com grandes eventos, como Copa do Mundo e eleição, há um contraponto, porque muitas das incertezas de 2013 ficaram no passado. Um bom exemplo é o dólar, que está mais equacionado hoje”, comenta Mourão.

Para o executivo do Credit Suisse, o mercado está cauteloso. Por outro lado, ele comenta que houve uma melhora na economia dos países onde estão as sedes de empresas investidoras, e o interesse pelo Brasil não diminuiu. Morão também aposta numa grande movimentação por parte dos fundos de private equity.

Também no grupo dos mais otimistas, Eduardo Centola, sócio do Banco Modal, comenta que o segmento de M&A experimenta ciclos, porém, nunca fica estagnado. Centola diz que há uma cautela generalizada, mas enxerga um horizonte com um volume grande de atividades, sobretudo na área de private equity.

“Tenho acompanhado movimentações de novas participações societárias, acionistas tomando decisões estratégicas motivados por uma percepção diferente de risco. Neste cenário, vejo o grande momento dos fundos de private equity, que passaram por um período de captação e estão com dinheiro para buscar bons investimentos no Brasil, sobretudo, porque grande parte deles foi estruturada para investir no mercado nacional”, diz Centola.

Responsável pela área de M&A, Reinaldo Grasson, sócio da Deloitte, diz que é preciso considerar o crescimento do mercado doméstico que beneficiou as operações de M&A em áreas como varejo, consumo, saúde e educação. No entanto, há uma tendência de redução de consumo no mercado doméstico, o que coloca em evidência outro setor: a infraestrutura.

Mourão: fazer análises menos emocionais e olhar com frieza os números

Mourão: fazer análises menos emocionais e olhar com frieza os números

“O Brasil tem um enorme caminho a trilhar em termos de infraestrutura. Um cenário bem diferente dos mercados dos EUA e da Europa. É um segmento que está na mira dos investidores. Concordo que haja também boas oportunidades na área de private equity, porém, como são operações de longo prazo, se o investidor faz uma opção errada na largada, ele vai gastar mais para reestruturar depois. Esta característica aumenta a cautela. Acho que o cenário em termos de M&A no Brasil só ficará mais claro em 2015 e 2016”, completa.

Caetano Fabrini, diretor res-ponsável pela área de M&A do banco de investimentos do Banco ABC Brasil, também destaca as áreas de consumo, varejo e tecnologia. “Há uma aposta forte no segmento de M&A no ABC Brasil. Tenho reparado que nos setores em que o governo atua com mais interferência, como sucroalcooleiro e petróleo, há uma retração maior por parte dos investidores, pois a precificação dos ativos se torna mais difícil”, comenta.

Renato Stetner, sócio do escritório Castro, Barros, Sobral, Gomes Advogados, acredita que os setores de bens de consumo, varejo e saúde permaneçam na mira dos investidores na área de M&A. “São setores que ainda se beneficiam do aumento de renda da população. Porém, não há como desconsiderar que a percepção de risco do Brasil realmente piorou sob o ponto de vista do investidor estrangeiro.”

Na análise da advogada Natalie Sequerra, sócia do escritório Lobo&Ibeas, o primeiro semestre será de observação. “A desvalorização do real pode tornar o preço mais atraente para o investidor estrangeiro. Mas há muita coisa para acontecer na área de infraestrutura, um cenário que não existe nos EUA e na Europa. Enxergo também uma tendência de crescimento em alguns setores, como transporte e logística, que despontaram em 2012”, detalha.

Bernardo Rothe, gerente executivo da diretoria de mercado de capitais e investimentos do Banco do Brasil, destaca que o potencial de crescimento do Brasil continua suplantando a expectativa de outros mercados. “Aqui estão as oportunidades de longo prazo. O Brasil, como a China, não vai deixar de oferecer oportunidades para os investidores. Trata-se de um momento de realocação de portfólio, mas a economia do Brasil tem vantagens com relação a outros mercados, como o México, por ser muito diversificada”, conclui.

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